Fundando a OSC um abrigo para mulheres que sofreram violência doméstica
Este newsletter é um memorial. As opiniões e experiências compartilhadas neste newsletter são pessoais da fundadora e não representam necessariamente a posição institucional do Viveiro da Promessa ou de seus membros.
Enquanto as portas do Viveiro da Promessa não abrem, isso não significa que não há luta. Há. Todos os meses, vou contar essa jornada, com tudo que está acontecendo nos bastidores de construir uma OSC (organização de sociedade civil) do zero.
Há três anos me mudei para esta cidade com uma meta: construir uma casa-abrigo. Não conhecia uma alma viva, mas mesmo assim eu vim. Deus me trouxe para cá, disso eu sei. Mas mesmo não conhecendo ninguém, coloquei minha estratégia diante de Deus e parti para a luta.
Neste mês, maio de 2026, a estrutura começou de verdade.
AS PRIMEIRAS CONQUISTAS DA OSC
Há uma lista de 23 tarefas para fundar uma OSC no Brasil. Eu não sabia disso quando comecei sozinha, 30 dias atrás.
Fui descobrindo uma por uma, cada item revelava três mais que eu não sabia que existiam. Hoje, 13 estão concluídos. Cinquenta e sete por cento.
Feitos por uma pessoa só, sem contador, sem advogado fixo, sem equipe.
Entre uma ligação não respondida e outra, entre um dia de febre e o seguinte, entre uma versão do estatuto e a próxima, as sementes da OSC foram plantadas.
Não conto isso para impressionar. Conto porque quando a primeira mulher chegar, ela não vai saber que aquele documento que garante os direitos dela foi reescrito dezenove vezes numa mesa. O regimento interno tem as versões um, dois, final, final 2, pós final e definitivo.
Ela não precisa saber. Mas você, que está lendo isso agora, precisa.

Newsletter diferente
Esta é a primeira edição do Até que Ela Venha. Este não vai ser o tipo de newsletter que conta quantas vidas foram transformadas ou quantos reais foram arrecadados.
Ainda não.
Mas mesmo quando esses números existirem, não é isso que quero que você leia aqui. Quero que você entre comigo nos bastidores. No que é difícil. No que me faz chorar. No que me faz querer parar, e no que me faz continuar mesmo assim.
Algumas edições vão te deixar com raiva. Outras vão te encher de esperança. Mas todas vão te mostrar exatamente onde eu estou nessa caminhada, o que está faltando, e como você pode orar comigo. Porque é disso que eu preciso. Não de espectadores. De pessoas que estejam dentro disso comigo.
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fundação da diretoria
Antes de qualquer coisa, fiz um propósito de seis semanas (40 dias) e estou em jejum e oração pedindo a Deus que me mostre quem vai compor a diretoria do Viveiro da Promessa. Sem diretoria, não há OSC. Sem OSC, não há doação. Sem doação, não há como ajudar essas mulheres.
Não é uma decisão que se toma levianamente: são as pessoas que vão carregar esta missão comigo, que vão sentar na mesma mesa que a mulher que chegou com nada, que vão firmar os documentos que dizem que ela importa.
Quebrei o jejum três vezes por causa de virose e febre. Perdi três quilos em cinco dias. Mas estou de pé e ainda tenho mais 10 dias até concluir.
Nas primeiras duas semanas do jejum, entrei em contato com nove igrejas:
- Duas nunca responderam.
- Uma respondeu e desapareceu.
- Uma disse que não trabalhavam com parcerias externas.
- Uma tinha um programa interno já em ação, mas somente para os membros dela.
- Um pastor me convidou para conversar, mas depois de um culto que terminava às 22h. Eu disse não.
- Uma disse que eu era nova na cidade e precisava participar mais antes de considerar qualquer coisa.
- A oitava tinha uma teologia de reconciliação e valorizava matrimônio e união acima de tudo.

Meia-noites que não esquecem
A oitava conversa me desmantelou de um jeito que eu não esperava.
Saí dela carregando memórias que eu não tinha planejado revisitar. Me lembro do banheiro frio, da toalha pressionada contra o rosto, do choro que não podia ter som. Não porque eu não quisesse chorar, mas porque não podia acordá-lo.
Me lembro de como a gente aprende a fazer isso: a gritar em silêncio, a engolir em seco, a piscar várias vezes até o rosto parar de trair o que está por dentro. Fiquei 19 anos aprendendo isso.
Por fora, serena. Por dentro, dezenove anos num único instante.
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corrida contra o tempo
Naquela noite, desabafei para Deus. Estava sendo difícil, sim, mas a angústia me comia por dentro.
A cada dois minutos que eu me atrasava, existia uma mulher apanhando em algum lugar e não tinha aonde ir. Por dia, numa delegacia de mulher chegam em média 40 denuncias. E eu aqui, sem 1 apoiador. Sem ninguém do meu lado.
O bom de servir um Deus que nos ama, é que Ele ouve…
Salmo 56:8
Você registrou cada um dos meus lamentos. Guardou cada uma das minhas lágrimas na sua garrafa. Não estão todas registradas no seu livro?

O DEUS QUE NOS OUVE
Fui para o meu quarto e fiquei quieta diante de Deus.
Não com desespero, mas com uma pergunta que dói mais que desespero:
- Será que eu tinha dito algo errado em alguma daquelas conversas?
- Será que havia uma porta que deveria ter aberto, e eu tinha perdido a hora?
- Será que não deu certo porque eu fiz algo que não era para ser feito?
- Porque nenhuma igreja está entendendo a real situação aqui?
Essa é a oração mais difícil. Não a que grita. A que fica em silêncio e espera.
Eu tinha uma lista de dez nomes. Oito estavam riscados. Um, riscado múltiplas vezes.
Na minha cabeça, eu via aquela cena de Números: os doze espias voltaram da terra prometida, dez com medo, dois com fé. Eu não duvidei de Deus. Não duvidei do plano. Mas comecei a duvidar das pessoas que diziam seguir a mesma fé que eu, e que na hora de agir, escolheram o conforto.
Pedi a Deus, em voz baixa:
Eu tenho só mais um nome na lista, Senhor. Um. Me manda um Josué. Que seja um Caleb. Tanto faz, qualquer um… Os dois seria melhor, mas eu não consigo fazer isso sozinha. Não conheço ninguém aqui.
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O Josué QUE eu PRECISAVA
O nono nome tinha pós-graduação em aconselhamento de vítimas de abuso. Tinha uma lista de contatos. Mandei uma mensagem de texto apresentando o Viveiro. Em minutos, me mandou dois nomes no celular.
Olhei para aquela tela brilhando na minha face, meio sem acreditar, mãos trêmulas, segurando as lágrimas de alegria. Os dois nomes, ali, tangível.
Escrevi para cada uma e me apresentei.
Pude respirar de novo. Os olhos arderam um pouco, daquele jeito que acontece quando a gente reconhece a mão de Deus sem ter como negar.
São dois “talvez” que podem mudar tudo, porque Deus sabe exatamente onde estão os seus.
Isaías 61:3
Para dar-lhes uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de luto, manto de louvor em vez de espírito angustiado.

parcerias sendo formadas
E enquanto tudo isso acontecia, Deus fez outra coisa que eu não pedi,
mas louvo porque o cuidado Dele é imenso.
Trouxe até mim, nesta cidade pequena perdida no litoral gaúcho, um político com ligação com a delegacia da mulher. Trocamos número. Estamos conversando.
Deixo claro: o Viveiro da Promessa não tem filiação política e nunca terá. Mas essa pessoa tem anos de trabalho na Delegacia da Mulher. Essa pessoa sabe o que funciona, onde trava, onde o sistema falha e onde abre brecha. É uma fonte de conhecimento que eu não teria de outra forma, e sou grata por isso.
Mas não foi só o político.
Entrei em contato com uma enfermeira e uma assistente social, e já estamos marcando uma reunião. Elas lançaram, em conjunto com a prefeitura, um QR code que será colocado em banheiros públicos, praças e espaços de passagem, com cinco perguntas totalmente anônimas para que as vítimas possam fazer contato. O programa se chama Acompanha Mulher. E foi lançado agora, justo agora, para que eu pudesse encontrar essas pessoas.
A rede está começando a se formar, não da forma que eu planejei, mas da forma que só Deus consegue fazer.
O que a doação já fez
Enquanto isso, a casa-abrigo foi limpa. Cada cômodo varrido, cada parede pronta. Essa limpeza foi paga pela primeira doação que o Viveiro da Promessa recebeu, em serviço, de alguém que acreditou antes de ver qualquer resultado.
Caminho pela casa vazia agora. A esperança preenche os cômodos, porque consigo ver a primeira mulher chegar. Consigo ver as crianças dela dormindo pela primeira vez sem medo do dia seguinte. Consigo vê-las brincando num espaço seguro. Consigo ver ela na cozinha, cozinhando uma refeição do jeito que ela quer. E consigo vê-la de frente, olhar nos olhos dela, e dizer com um sorriso no rosto: você está segura aqui. Estamos com você.
Para que isso aconteça, ainda precisamos de móveis. Sem o CNPJ e a conta institucional abertos, não posso receber doações em dinheiro ainda. Mas se você tiver algum dos itens da nossa lista em viveirodapromessa.org/nossa-meta-atual, adoraria conversar contigo. Busco pessoalmente se você estiver a até duas horas de Porto Alegre.
Isaías 58:11
“O Senhor te guiará continuamente, saciará a tua alma nas securas, e dará vigor aos teus ossos; e serás como um jardim regado, e como uma fonte cujas águas nunca faltam.”
Ela ainda não veio…. mas até que ela venha, estarei lutando para ela ter um lugar para dormir e comida pra comer.
Florescer é um ato de fé.
Viveiro da Promessa: acolhimento, fé e recomeço para mulheres em situação de violência doméstica. Sigilo absoluto. Associação cristã sem fins lucrativos.
