Hoje à noite, você vai contar.
Você decidiu. Não dá mais para adiar. Vai sentar com seu filho, ou com a sua filha, e dizer com todas as letras: o papai e a mamãe vão se divorciar. O papai não vai mais morar aqui. A casa vai mudar.
E você vai lembrar dessa noite para o resto da vida.
Você está sentada na beira da cama. O pijaminha já está vestido. O cabelinho ainda está úmido do banho. E o seu filho, ou a sua filha, olha pra você com aqueles olhos que são seus. Aqueles olhos que você desenhou no ventre. E você sente que vai dizer alguma coisa que vai mudar o mundo dessa criança para sempre.
E nesse exato segundo, uma voz por dentro grita:
Eu vou destruir a vida desse filho. Eu sou um monstro. Que mãe faz isso? Que mãe desfaz uma família?
E você duvida. Por um instante. Talvez por dias. Talvez por meses inteiros antes desse momento. Você duvida se fez a escolha certa. Você revisita cada briga, cada cena, cada noite, e se pergunta se exagerou. Se foi tão ruim assim. Se a culpa não foi sua. Se você não está jogando fora alguma coisa que ainda tinha conserto.
Eu conheço esse momento. Não estou falando teoria. Conheço pelo peso dele no peito.
E é por isso que eu preciso te dizer, antes de qualquer outra coisa neste texto:
Você não é monstro. Você é mãe. E mãe que escolhe construir, mesmo doendo, é o oposto de monstro.
Continue.
Talvez seu filho já tenha feito as perguntas que você não estava pronta para responder:
- “Por que o papai não dorme mais aqui?”
- “A gente vai ver o papai amanhã?”
- “Foi por minha causa?”
- “Você não gosta mais do papai?”
- “Quando a gente volta pra casa?”
Ou talvez ele ainda não tenha aberto a boca. Mas você sabe que ele está olhando. Crianças estão sempre olhando.
E por dentro, você está num turbilhão. Você tem medo de dizer demais e estragar a inocência dele. Tem medo de dizer pouco e deixar ele perdido. Tem raiva guardada e não quer que ela vaze pela boca sem aviso. Quer proteger sem mentir. Quer ser honesta sem destruir o pai dele. Quer parecer firme quando, por dentro, você está em pedaços.
Essa tensão é real. E ela tem caminho.
“Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça.” (Isaías 41:10)
Lê de novo. Devagar. Esse versículo foi escrito para esse momento.
Uma muda no vaso novo
Quando a gente transplanta uma muda jovem de um vaso para outro, a gente não arranca as raízes. A gente afrouxa a terra com cuidado. Leva um pouco da terra antiga junto. Não mente para a planta sobre o novo lugar. Só dá água, luz, e tempo.
A muda não precisa entender a mudança. Ela precisa se sentir segura no solo novo.
Seu filho é essa muda. E você é o solo novo.
Não tem pressa. Não tem grandes discursos. Tem terra firme, e luz consistente, e tempo.
Antes de contar do divórcio aos seus filhos
Duas coisas precisam estar no lugar antes da conversa:
1. O divórcio precisa ser definitivo. Conversas de “talvez”, “estamos pensando”, “depende” só geram ansiedade. Crianças não suportam suspense. Espere até a decisão estar tomada e firme.
2. Você precisa estar regulada o suficiente. Não significa que você não pode chorar. Significa que você não vai despejar sua raiva, seu medo, ou sua mágoa em cima da criança como se ela fosse adulta. Se você não está regulada hoje, espere. Respire. Volte amanhã. Adiar a conversa por algumas horas não vai prejudicar ninguém. Ter a conversa em pânico, sim.
E uma coisa que você não precisa: o pai do seu lado.
Em alguns divórcios amigáveis e seguros, os pais conversam com os filhos juntos. Esse não é o seu caso. Se você está saindo de um relacionamento violento, de alto conflito, de abuso emocional, ou de qualquer dinâmica em que o pai vai usar a conversa contra você, você fala sozinha. Avisar o pai antes do que você vai dizer pode te colocar em risco. Pode dar a ele tempo de preparar uma versão própria dos fatos para a criança. Pode virar mais uma arma na mão dele.
Você pode falar sozinha. Está tudo bem falar sozinha. A criança vai sentir que veio de você, com a sua voz, no seu colo. Isso é força. Não é falta.

Nunca minta. Para nenhuma idade.
Esse é o princípio que vale para o bebê de oito meses e para a adolescente de quinze. Crianças têm radar para mentira que adulto perdeu há muito tempo. Quando você mente, mesmo com boa intenção, você ensina duas coisas perigosas:
- Que a verdade não é segura nessa casa.
- Que a mãe não é confiável.
Você pode dizer: “Isso eu te conto quando você for um pouquinho maior.”
Você pode dizer: “Isso eu não sei.”
Você pode dizer: “Isso é coisa de adulto, e eu não vou compartilhar com você agora.”
Você não pode dizer o que não é verdade.
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)
Não é só teologia. É o jeito de construir uma casa. Sua casa nova precisa ter verdade no alicerce, em doses que cabem na idade. Deus honra quem honra a verdade. Mesmo quando a verdade é mais difícil que a mentira de momento.
Como falar do divórcio em cada idade
Cada idade entende o divórcio de um jeito porque o cérebro está em construções diferentes. Não é sobre proteger com mentira. É sobre traduzir a verdade para a linguagem que aquela fase consegue receber.
Bebês e crianças muito pequenas (0 a 3 anos)
Nessa fase, o cérebro está formando o que os pesquisadores chamam de “apego”. É a base de toda a vida emocional que vem depois. O bebê não entende palavras como “divórcio”, “casa nova”, “papai não mora mais aqui”. Mas ele lê o seu corpo. Ele sente sua respiração. Ele percebe quando seu rosto está tenso, mesmo quando você está tentando esconder. O sistema nervoso dele se regula no seu. Por isso, mais importante do que o que você diz, é como você está enquanto diz.
O que fazer:
- Manter a rotina o mais firme possível: mesmo horário de dormir, mesmas músicas, mesmo lanche, mesmas pessoas.
- Falar com palavras simples e curtas: “O papai mora em outra casa agora.” (se for verdade e seguro mencionar)
- Repetir muito, muito, muito. Repetição cria previsibilidade, e previsibilidade é o que cria segurança nessa idade.
- Oferecer mais contato físico do que o normal. Colo, abraço, presença. O corpinho dele acalma no seu.
O que evitar:
- Conversas longas sobre sentimentos.
- Mudar mais de uma coisa ao mesmo tempo (casa, cuidador, escola, rotina).
- Discutir coisa de adulto perto deles achando que “não entendem”. O corpinho entende.
Pré-escolares (4 a 6 anos)
Essa é a idade do pensamento mágico. Cientificamente, é uma fase em que a criança ainda não separa o desejo do real. Ela acha que pensamento causa coisa. Se ela pensou “queria que o papai sumisse” depois de uma briga, e o papai sumiu, ela acha que foi ela. Essa é a verdade do cérebro dela, mesmo que você diga cem vezes que não.
A pergunta secreta dessa idade é: “Foi por minha causa?”
E você precisa responder essa pergunta antes mesmo dela perguntar.
O que dizer:
- “O papai e a mamãe decidiram morar em casas diferentes. Isso é coisa de adulto. Você não causou isso.”
- “Você não pode consertar. E você também não quebrou.”
- “Nós dois te amamos. Isso não muda.”
- “É normal sentir saudade. É normal sentir raiva. É normal sentir confusão. Todos esses sentimentos podem morar dentro de você ao mesmo tempo.”
O que evitar:
- Detalhes sobre o porquê do divórcio.
- Frases como “agora você é o homem da casa” ou “agora você cuida da mamãe”. Crianças não carregam adultos.
- Promessas que você não pode cumprir. (“Tudo vai voltar a ser igual.”) Não vai. E ela vai perceber.
Idade escolar (7 a 11 anos)
Aqui o cérebro entra no que se chama “operações concretas”. A criança consegue raciocinar com lógica. Faz perguntas mais difíceis. Percebe incongruências. Compara sua família com a dos amigos. Sente vergonha de ser “diferente”. Pode esconder o que sente para te proteger.
E nessa idade, eles começam a notar quando o adulto mente. Não acham bonitinho. Anotam.
O que dizer:
- “A gente decidiu que nossa casa precisava ficar mais segura, mais tranquila, mais saudável. Foi uma decisão difícil. Foi a melhor decisão para a família.”
- “Você pode me perguntar qualquer coisa. Se eu não puder responder agora, eu te digo: ‘Essa eu te respondo quando você for um pouquinho maior.’ Mas eu nunca vou te mentir.”
- “Você pode amar o seu pai. Você pode ficar triste por ele. Você pode ficar com raiva dele. Tudo isso é permitido aqui.”
O que evitar:
- Pedir que a criança escolha lado.
- Fazer a criança sua confidente sobre o relacionamento adulto.
- Mandar recados pelo filho. (“Diz pro seu pai que…”)
- Comparar a postura do pai com a sua. (“Eu trabalho, o seu pai não.”)
Adolescentes (12 anos para cima)
Nessa fase, o cérebro está construindo identidade. Eles já entendem muito. Talvez mais do que você gostaria. Estão formando o próprio juízo moral, e podem chegar a conclusões diferentes das suas. Podem ter opiniões fortes, inclusive contra você. Isso é parte do desenvolvimento, não é traição.
Eles também estão mais sensíveis à hipocrisia. Se você diz uma coisa e age outra, eles veem.
O que dizer:
- “Eu sei que você já percebeu muita coisa. Eu não vou fingir que está tudo bem.”
- “Eu não vou te pedir para escolher um lado. Mas eu também não vou mentir sobre o que aconteceu, se você me perguntar diretamente.”
- “Sua relação com o seu pai é sua. Eu não vou interferir, a não ser que algo te coloque em risco.”
- “Você tem direito a ter raiva de mim. Eu prefiro sua raiva honesta do que seu silêncio educado.”
O que evitar:
- Tratar como adulto-confidente. Ele continua filho.
- Sobrecarregar com detalhes financeiros, jurídicos, ou emocionais.
- Punir a opinião dele, mesmo quando dói em você.
- Competir com o pai pelo afeto. Você vai perder, e ele vai sentir.

Ela precisa se sentir segura no solo novo.
Quando o medo bate (e ele vai bater)
Lembra daquele momento na beira da cama, em que você se chamou de monstro?
Esse momento volta.
Volta no domingo à tarde, quando seu filho pergunta do pai. Volta na quarta de manhã, quando ele acorda chorando e quer ir embora. Volta quando ele diz, com toda a fúria de quem ainda não sabe pesar palavras: “eu queria morar com o papai.” Volta quando o pai liga e a criança chora ao desligar. Volta quando alguém da família, com cara de preocupação, te pergunta se você “tem certeza”.
E quando o medo bate, o instinto pede uma coisa: voltar.
Talvez eu tenha exagerado. Talvez não tenha sido tão ruim assim. Talvez se a gente tentasse mais uma vez. Os filhos vão sofrer menos se a família estiver junta.
Não.
Escuta com calma o que eu vou te dizer.
Você não saiu por capricho. Você saiu porque ficar custava mais do que sair. Você não está destruindo o futuro deles. Você está construindo. E construir é mais lento que destruir. Por isso parece, agora, que não está dando certo. Construção parece bagunça enquanto está acontecendo.
Os seus filhos podem te odiar nesse processo. Podem chorar pelo pai por meses. Podem dizer coisas que cortam. Podem, em certos momentos, te trocar por ele no afeto declarado. Confie no que você sabe.
Eles vão entender. Talvez não amanhã. Talvez não nessa década. Mas vão.
Filhos que crescem em casa onde a mãe ficou apanhando, ou apanhando com palavras, aprendem que amor é assim. Filhos que crescem vendo a mãe escolher sair, mesmo doendo, mesmo caro, aprendem que existe um momento de dizer não. Você está ensinando isso, agora, com o seu corpo.
Não confunda culpa com discernimento. A culpa é barulhenta e diz “volta”. O discernimento é quieto e diz “segue”.
“Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus.” (Romanos 8:28)
Inclusive isso. Inclusive o divórcio dolorido. Inclusive os filhos confusos. Inclusive o medo que bate.
As frases que curam, e as que ferem
Repita as que curam até virarem ar dentro de casa:
| Frases que curam | Frases que ferem |
|---|---|
| “Isso não é culpa sua.” | “Olha o que o seu pai fez com a gente.” |
| “Eu te amo. Seu pai te ama. Isso não vai mudar.” | “Seu pai não te ama de verdade.” |
| “Você pode sentir o que sentir. Tudo cabe aqui.” | “Para de chorar, você já é grande.” |
| “Você não precisa me proteger.” | “Você é o homem da casa agora.” |
| “Você pode me perguntar qualquer coisa.” | “Não fala disso, esquece.” |
| “A gente vai ficar bem. Não hoje, talvez. Mas a gente vai.” | “A gente nunca vai ficar bem por causa do seu pai.” |
Alienação parental: por que isso importa para o seu filho
A Lei 12.318/2010 fala sobre alienação parental. Em termos simples: é quando um dos pais usa o filho como arma contra o outro. A lei existe. Tem consequências. Mas não é por medo da lei que você precisa entender isso.
É pelo seu filho.
Eis a parte que poucas mães entendem no começo: a criança é metade de você, e metade do pai dela. Isso é fato biológico, e fato emocional. Quando você ataca o pai, você ataca, sem querer, metade de quem ela é. O cérebro infantil não consegue separar “meu pai é ruim” de “metade de mim é ruim”. Ele junta.
Por isso, crianças que crescem ouvindo a mãe falar mal do pai, com frequência, fazem uma de duas coisas:
- Começam a se odiar em silêncio, achando que herdaram a maldade.
- Se rebelam e correm para o pai, mesmo um pai péssimo, porque o cérebro precisa proteger essa metade.
Nenhum dos dois caminhos é o que você quer para o seu filho.
Por isso, mesmo quando dói, mesmo quando você está certa, mesmo quando o pai realmente foi terrível, você não pode descrever a identidade dele para a sua criança. Você pode descrever comportamentos. Não pode descrever caráter.
| Alienação (não faça) | Honestidade saudável (pode fazer) |
|---|---|
| Descrever o caráter do pai. | Descrever um comportamento específico. |
| “Seu pai não presta.” | “O que aconteceu naquela noite não foi certo.” |
| “Seu pai mente sempre.” | “Quando o papai te disse aquilo, não era verdade.” |
| “Seu pai nunca te amou.” | “Eu não sei o que o seu pai sente. Eu sei o que eu sinto: eu te amo.” |
| “Se não fosse seu pai, a gente estaria bem.” | “A nossa casa precisava mudar para todo mundo ficar bem.” |
| “Não conta nada pro seu pai.” | “Isso aqui é nossa conversa. Se você quiser contar pro seu pai, pode.” |
A diferença é sutil mas decisiva. Honestidade descreve fato. Alienação interpreta caráter.
Você pode contar à sua filha que o pai gritou. Você não pode contar à sua filha que o pai é mau. A primeira é a realidade dela, que ela viu. A segunda é uma sentença sobre alguém que ela ainda ama, e cuja identidade ela ainda está usando para se construir.
Como falar do divórcio quando houve violência doméstica
Essa é a parte mais difícil. E precisa ser dita.
Se o seu filho viu o pai bater em você. Se ouviu os gritos. Se se escondeu no armário com o irmãozinho. Se tem essa memória no corpo.
Negar o que ele viu não protege ele. Confunde ele.
Existe uma diferença enorme entre alienação parental e validação da realidade.
| Negar o que aconteceu | Validar o que aconteceu |
|---|---|
| “Esquece, não aconteceu nada.” | “Sim, aquilo aconteceu. Você não viu errado.” |
| “Seu pai estava só nervoso.” | “O que aconteceu não foi certo. Não importa quem estava nervoso.” |
| “A gente não fala disso.” | “Pode falar. Pode perguntar. Eu escuto.” |
| “Foi minha culpa, eu provoquei.” | “Ninguém merece ser tratado assim. Nem você. Nem eu.” |
Crianças que crescem ouvindo “isso não aconteceu” sobre coisas que aconteceram aprendem a não confiar nos próprios olhos. E essa é uma ferida que dura a vida toda.
Você pode dizer, com toda calma:
- “Sim, papai gritou. Aquilo me machucou. Eu também fiquei com medo.”
- “Bater nas pessoas não é certo. Não importa quem seja.”
- “Eu estou tomando providências para que isso não aconteça mais.”
- “Você ainda pode amar o seu pai. E pode ficar com raiva também. Os dois cabem.”
- “O que o papai fez não é o que você vai precisar fazer quando crescer.”
Não invente. Não exagere. Não adicione drama. Apenas confirme o que aconteceu, com palavras simples e firmes.
Se você ouviu por muito tempo a ameaça “vou tirar as crianças de você”, esse medo é real, e ele tem nome. Falamos sobre isso aqui: Tirar as crianças de você.
Seu filho não é seu psicólogo
Essa parte aqui é onde muita mãe boa erra, sem perceber.
Você passou anos engolindo. Engolindo medo, engolindo lágrima, engolindo verdade. Agora a casa está mais leve. E quando o seu filho de oito anos te abraça e pergunta “tá tudo bem, mamãe?”, a tentação é abrir tudo de uma vez. Soltar. Finalmente alguém escuta.
Não solte. Não com ele.
Filhos não são psicólogos. Filhos não são amigas. Filhos não carregam o peso adulto. Quando você usa o seu filho como caixa de descarga emocional, você inverte a relação. Ele vira o cuidador, e você vira a criança. E isso, com o tempo, faz mais estrago do que o divórcio.
| Despejo emocional (não) | Honestidade adequada (sim) |
|---|---|
| Chorar no colo dele contando dos problemas. | “Mamãe está triste hoje, mas mamãe vai cuidar disso. Você não precisa cuidar de mamãe.” |
| Contar sobre dinheiro apertado e medo do mês que vem. | “A gente vai ter que mudar algumas coisas. Mamãe está organizando.” |
| Reclamar do pai dele. | (silêncio sobre isso, com ele) |
| “Eu só tenho você.” | “Você é minha alegria. Mas mamãe tem outros adultos para conversar.” |
| Pedir conselho sobre decisões adultas. | Tomar a decisão você. Comunicar depois, em doses que ele aguenta. |
Você precisa de descarga. Você precisa muito. Mas a descarga vai em outros canais:
- Uma amiga adulta que não conta seus segredos.
- Uma psicóloga, presencial ou online.
- Sua pastora ou um casal pastoral de confiança.
- Um grupo de apoio para mulheres em situação parecida.
- Deus. De joelhos. Com toda a sua raiva, todo o seu choro, toda a sua dúvida. Ele aguenta. Seu filho de oito anos não aguenta.
“Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e ele te susterá; nunca permitirá que o justo seja abalado.” (Salmos 55:22)
Esse versículo é para você. Não para o seu filho carregar por você.
Escutar mais do que falar
Aqui está o segredo que ninguém te conta: nessa fase, você não precisa ter todas as respostas.
Você precisa estar presente para todas as perguntas.
Algumas formas de escutar:
- Quando ele falar, abaixe-se até a altura dele.
- Não interrompa. Mesmo quando a fala for confusa.
- Não corrija o sentimento. (“Não, você não está com raiva, você está cansada.”) Aceite o que ele nomeia.
- Pergunte: “Você quer me contar mais?” no lugar de “E aí?”
- Use silêncio. Crianças falam mais quando a gente não enche o espaço.
- Repita o que ele disse, com suas palavras: “Então você ficou triste quando o papai não veio buscar. Entendi.”
Isso se chama validação. E é exatamente o oposto do ambiente em que você provavelmente cresceu, e do ambiente do qual você acabou de sair.

Você precisa estar presente para todas as perguntas.
Você é o ambiente agora
Você morou em um lugar onde seus sentimentos eram negados, distorcidos, ou punidos. Onde “você está exagerando” era a frase favorita da casa. Onde chorar era fraqueza. Onde a verdade do que você sentia precisava caber no que o outro permitia que você sentisse.
Esse é o ambiente invalidante.
Você não pode recriar isso para seus filhos. Mesmo sem querer. Mesmo por exaustão. Mesmo quando o corpo pede o jeito antigo, porque o antigo é o que você conhece.
Eles precisam de um lugar onde:
- Os sentimentos têm nome.
- Os sentimentos não levam castigo.
- A verdade é dita em doses que a idade aguenta.
- O choro tem colo.
- A raiva tem escuta.
- O silêncio tem espaço.
Você vai falhar nisso. Várias vezes. Todas nós falhamos.
Mas a diferença entre o ambiente invalidante e o ambiente de validação não é a perfeição. É o reparo.
Quando você errar, você volta e diz: “Filho, mamãe respondeu mal agora. Mamãe estava cansada. Você não fez nada errado. Vamos tentar de novo?”
Isso. Isso é a casa nova.
Quando o pai humano falha, o Pai do céu não
Talvez seu filho tenha um pai que machucou. Talvez tenha um pai que abandonou. Talvez tenha um pai que está, agora, longe, e que não vai voltar. Ou que vai voltar e bagunçar, e ir, e bagunçar de novo.
Isso é uma ferida real. Não tente tampar com versículo.
Mas, em algum momento, com palavras simples, conte para o seu filho que existe um outro Pai. Não para substituir. Para complementar. Para mostrar que o que ele talvez não tenha tido na carne, ele pode ter no espírito.
“Quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá.” (Salmos 27:10)
“Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus no seu santuário.” (Salmos 68:5)
“Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem.” (Salmos 103:13)
Existe um Pai que não falha. Que não grita. Que não some. Que conta cada cabelo da cabeça do seu filho. Que junta cada lágrima num odre (Salmos 56:8). Que olha para a sua criança machucada e diz: eu te conheço, eu te amo, eu não vou embora.
Você não consegue dar tudo isso ao seu filho. Você é humana. Você se cansa, você se irrita, você esquece. Mas você pode apresentar essa Pessoa para ele. Pode rezar com ele. Pode dizer, antes de dormir: “Tem Alguém que cuida da gente o tempo todo, mesmo quando mamãe está dormindo. Ele não dorme nunca.”
E essa imagem fica. Mesmo quando a sua cansa. A imagem de um Pai que cuida fica.
Para você também. Você que talvez não tenha tido pai bom. Você que talvez tenha tido um pai parecido com o que você acabou de deixar. Você também é filha. E você também tem um Pai.
“Pode uma mulher esquecer-se tanto do filho que cria… ainda que esta se esquecesse, eu não me esquecerei de ti.” (Isaías 49:15)
Ele lembra. Ele lembra de você. Ele lembra dos seus filhos. Ele não esquece.
Para pensar essa semana
Não responda agora. Apenas deixe as perguntas trabalharem em você:
- Que frases da minha infância eu não quero repetir com meus filhos?
- Qual filho meu está mais precisando de escuta nessa semana?
- O que meu filho me contou e eu ainda não validei?
- Quando foi a última vez que eu disse “isso não é culpa sua”?
- Onde eu estou usando meu filho como descarga? Para onde eu posso levar essa descarga, em vez disso?

Mas eles vão te entender amanhã. Confia no que você sabe.
Uma oração
Pai,
Tu sabes do peso dessa casa hoje. Tu sabes do medo que volta na beira da cama, quando os olhos do meu filho me olham e eu duvido. Me lembra que eu não sou monstro. Me lembra que eu escolhi construir. Me ajuda a ser presença antes de ser palavra. Me ajuda a ouvir antes de explicar. Me dá firmeza para não falar mal do pai deles, e honestidade para não negar o que aconteceu. Cuida do coração dos meus filhos onde minhas mãos não alcançam. Sê Tu o Pai onde a presença humana falhou.
Em nome de Jesus, amém.
Voltando à beira da cama
Lembra daquele momento? Você sentada, o pijaminha do seu filho, os olhinhos olhando pra cima, e a voz por dentro chamando você de monstro?
Aquele momento não era verdade. Aquele momento era medo.
Você não é monstro. Você é mãe. Mãe que escolheu construir, mesmo doendo. Mãe que escolheu validar, mesmo cansada. Mãe que escolheu verdade, mesmo difícil. Mãe que escolheu sair, para que dentro de casa, de agora em diante, dê para respirar.
E o Pai do céu, Esse, viu. Esse conta cada lágrima sua e cada lágrima deles. Esse vai cuidar do que sua mão não alcança.
Para refletir…
A culpa é barulhenta e diz “volta”.
O discernimento é quieto e diz “segue”.
Se você estiver em situação de risco
Se você ou seus filhos estão em risco neste momento, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher). É gratuito, funciona 24 horas, e pode ser feito de qualquer telefone.
Em caso de emergência imediata, ligue 190.
Conversar com seus filhos sobre o divórcio é parte de um trabalho maior, e você não precisa caminhar sozinha nele. Buscar acompanhamento com psicóloga ou psicólogo especializado em violência doméstica e em crianças expostas à violência faz diferença real, para você e para eles.
Se esse texto chegou até você
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Se você está passando por um momento especialmente difícil e quer conversar com alguém de forma profissional, ligue para o 180. É a Central de Atendimento à Mulher, é sigiloso e não aparece na sua conta telefônica.
Se você estiver em perigo agora, ligue 190.

