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Por que eu não me reconheço mais?

Porque não me reconheço mais?

Tem dias em que você olha no espelho e a pessoa que está do outro lado parece estranha. Não é a aparência, não é o cabelo diferente, não é o peso que ganhou ou perdeu. É algo mais fundo.

É como se os olhos que te olham de volta fossem de alguém que você conhecia muito bem um dia, mas foi perdendo de vista aos poucos, sem perceber exatamente quando isso começou.

Esse texto é para você que está nesse lugar. Não precisa ter um nome para o que está sentindo agora. Não precisa entender tudo. Só precisa saber que essa dor que você carrega tem sido visto, inclusive por Deus.

A maioria das pessoas pensa que não se reconhecer é algo que acontece de repente. Uma crise. Um momento. Mas quase nunca é assim. É um processo lento. Silencioso. Que vai acontecendo nas pequenas coisas do dia a dia.

  • Uma opinião que você guardou porque não valia a discussão.
  • Um plano que você abriu mão porque os outros tinham prioridade.
  • Uma parte de você que foi ficando quieta para que a paz fosse mantida.
  • Um desejo que você parou de mencionar porque aprendeu que não seria levado a sério.
  • Uma voz interior que foi ficando mais baixa, até que você quase não consegue mais ouvi-la.

Isso não acontece de uma vez. Vai se instalando devagar, como água que infiltra por uma fresta pequena. Você nem percebe quando a casa começou a ficar úmida. E aí um dia você olha para trás e percebe que faz tempo que não faz algo só porque quer.

Faz tempo que não toma uma decisão pensando primeiro em você. Faz tempo que não sabe ao certo o que você pensa, o que você sente, o que você quer. Faz tempo que você não se reconhece.

Essa pergunta, que talvez você nunca tenha dito em voz alta mas pensou mais de uma vez, não é frescura. Não é drama. Não é fraqueza. É um sinal.

Quando a gente para de se reconhecer, geralmente é porque foi colocando partes de si mesma de lado, uma a uma, por razões que pareciam fazer sentido no momento. Você foi sendo moldada pelas expectativas dos outros, pelo ritmo da vida, pelas responsabilidades que foram chegando, pelas coisas que você precisava ser para que tudo funcionasse. E em algum ponto, a versão de você que restou ficou tão diferente da original que dói olhar.

Isso pode acontecer de várias formas. Reconhece alguma dessas situações?

  • Você sente que perdeu o entusiasmo por coisas que antes te faziam feliz
  • Você evita falar sobre como está se sentindo porque não quer ser um peso para ninguém
  • Você não consegue lembrar a última vez que tomou uma decisão pensando só em você
  • Você sente que precisa andar na ponta dos pés emocionalmente, sempre medindo o que fala e como fala
  • Você se compara com quem você era antes e sente que essa pessoa foi embora
  • Você está exausta mas não consegue descansar de verdade, nem quando tem tempo
  • Você sente uma tristeza que não tem nome e não tem motivo claro

Não precisa marcar todos. Às vezes um já é suficiente para dizer que algo dentro de você está pedindo atenção.

Essa pessoa que você se tornou — foi você que escolheu ela?
Essa pessoa que você se tornou — foi você que escolheu ela?

Uma das coisas que mais me impressiona nas Escrituras é que Deus nunca perdeu de vista quem você é. Mesmo quando você perdeu.

O Salmo 139:13-14 diz: “Tu formaste o meu interior; tu me teceste no ventre de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombroso e maravilhoso me formaste.” Quem você é foi tecido por Deus, fio por fio, antes de qualquer pessoa ter opinião sobre isso. Antes de qualquer voz ter te dito como você deveria ser. Antes de qualquer expectativa ter começado a moldar o espaço que você ocupa no mundo. Você não foi um rascunho. Você foi uma obra.

Em Jeremias 1:5, Ele diz algo ainda mais fundo: “Antes de te formar no ventre materno, eu te conheci.” Deus te conhece antes de você se conhecer. Isso significa que mesmo nos momentos em que você se perdeu de vista, Ele não perdeu. A versão original de você está preservada nEle. Intacta. Esperando.

E para a mulher que sente que foi apagada, que foi ficando invisível aos poucos, que foi ocupando cada vez menos espaço para que tudo ao redor funcionasse, Isaías 49:16 fala diretamente: “Veja, gravei você nas palmas das minhas mãos.”

Não esquecida.
Não apagada.

Gravada.

Em Deus, você tem um registro que ninguém consegue deletar. Nenhuma palavra dura. Nenhum olhar de desprezo. Nenhum silêncio que te fez sentir que você não importava. Nada disso teve o poder de apagar o que Ele escreveu sobre você.

Então deixa eu te perguntar algo com cuidado, porque não quero que você passe por essa pergunta correndo.

Você ainda sabe do que sonha? Não o sonho que coube na vida que você foi construindo ao redor dos outros. O sonho que era seu, que nasceu em você antes de você aprender a pedir permissão para tê-lo. Aquela coisa que você queria ser, fazer, viver, sentir… Que foi sendo guardada numa gaveta porque não era o momento certo, porque tinha outras prioridades, porque alguém deixou claro que não era importante.

Essa gaveta ainda existe. E você tem permissão de abri-la.

Encontrar quem você é não é um processo que acontece de uma vez. É uma série de pequenos atos de coragem. É falar quando você estava acostumada a calar. É escolher quando você estava acostumada a ceder. É admitir para si mesma que você tem desejos, opiniões, preferências, e que elas importam tanto quanto as de qualquer outra pessoa ao seu redor. É olhar para o espelho e decidir, um dia de cada vez, que a pessoa que está do outro lado merece ser conhecida.

Por você, primeiro.

Você não precisa se encontrar de uma vez. Mas pode dar um passo hoje. Pode lembrar de uma coisa que você amava fazer e parou. Pode escrever uma frase sobre quem você era antes de começar a se perder. Pode simplesmente sentar em silêncio e perguntar para si mesma: o que eu quero? E ouvir a resposta sem julgamento.

Trabalho com plantas há anos, e aprendi uma coisa sobre elas: uma planta que não está recebendo o que precisa não morre de uma vez. Ela vai dando sinais. As folhas ficam opacas antes de amarelar. O crescimento diminui antes de parar.

Ela vai adaptando, sobrevivendo com menos, até que um dia alguém olha e percebe que ela não está bem há muito tempo.

As pessoas fazem a mesma coisa. A gente vai adaptando. Vai sobrevivendo. Vai funcionando com menos luz, menos água, menos espaço do que precisaria. E por fora, às vezes até parece bem. Mas por dentro, algo foi sendo perdido.

Não estou dizendo que você é uma planta. Estou dizendo que o mecanismo de sobrevivência é parecido, e que reconhecer que algo está errado não é fraqueza, é o mesmo instinto que faz a folha se virar para onde tem luz. Você está se virando para onde tem luz agora mesmo, ao parar para ler isso.

Você ainda sabe o que te faz feliz?
Você ainda sabe o que te faz feliz?

Tem uma diferença importante entre mudar e ser apagada. Crescer, amadurecer, ganhar perspectiva, esses são processos de mudança saudáveis. A gente muda e reconhece a si mesma na nova versão. Sente que é ela, só que com mais camadas. Você não virou outra pessoa. Você foi colocada de lado.

O que muitas mulheres descrevem quando dizem “não me reconheço mais” é diferente. É uma sensação de que a versão delas que existia foi sendo colocada de lado. Que os gostos dela foram parecendo irrelevantes. Que a opinião dela foi ficando menos importante. Que o espaço dela foi diminuindo.

Isso não é crescimento. É erosão.

E a boa notícia, se é que posso chamar assim, é que o que foi colocado de lado pode ser reencontrado. Não é um processo rápido, e não é um processo que você precisa fazer sozinha. Mas essa versão sua que sente que sumiu não foi destruída. Ela está esperando.

Não estou te pedindo para resolver tudo hoje. Estou te pedindo para dar um passo menor.

Nomear.

Quando você consegue dizer, mesmo que só para si mesma, “estou irreconhecível de uma forma que vai além do físico” ou “eu não me reconheço mais, e isso me pesa”, você para de carregar aquilo em silêncio. Dar nome ao que você sente é o começo de entender de onde vem.

E entender de onde vem é o começo de saber o que você precisa.

Você não precisa ter todas as respostas hoje. Mas se esse texto tocou em algo real, se você leu até aqui e sentiu que era pra você, deixa esse reconhecimento acontecer. Você não está exagerada. Você não está fraca. Essa dor que sente é real, e isso merece ser levado a sério.

Porque não me reconheço mais?
Quando foi a última vez que você fez algo só porque queria?

E às vezes, a razão pela qual a planta não está recebendo o que precisa não é o clima. Não é a estação do ano. É o ambiente onde ela foi colocada.

Pensa nisso por um momento.

  • Quando foi a última vez que você expressou uma opinião e ela foi levada a sério?
  • Quando foi a última vez que você quis fazer algo e não precisou justificar, negociar ou se diminuir para que isso fosse possível?
  • Quando foi a última vez que você falou antes de pensar em como a sua fala seria recebida?

Se essas perguntas te fizeram pausar, não passa por elas rápido. Fica um momento nesse desconforto. Ele está te dizendo alguma coisa.

Às vezes a gente não se reconhece mais porque foi se tornando menor aos poucos. Uma opinião guardada aqui, um desejo deixado de lado ali, uma parte de si mesma colocada em silêncio para que a paz fosse mantida. E isso vai acontecendo tão devagar, tão naturalmente, que parece normal. Mas normal não é o mesmo que certo.

Se as palavras não estão vindo, empresta essas: Senhor, eu não me reconheço mais, de um jeito que eu mesma não sei explicar direito. Isso dói. Mas eu acredito que Tu me conheces, que Tu me vês, que o caminho não termina aqui. Me dá descanso para a minha alma hoje. E me ajuda a encontrar o caminho de volta para mim mesma… e o caminho de volta para Ti. Amém.

Guarda um momento tranquilo, pode ser só cinco minutos, e escreve numa folha de papel:

  • Como eu me descreveria há cinco anos?
  • O que eu gostava de fazer que faz tempo não faço?
  • Quando foi a última vez que me senti sendo eu mesma de verdade?

Não precisa mostrar para ninguém. É só para você começar a escutar a sua própria voz de novo. Esse é o jardim que precisa de água agora. Você mesma.

Você foi feita para florescer. Não para sobreviver em silêncio.

Se o que você está sentindo está pesado demais para carregar por conta própria, procurar uma psicóloga não é sinal de fraqueza. É um ato de cuidado com você mesma. Uma profissional pode te ajudar a entender o que está sentindo com mais clareza, num espaço seguro, sem julgamento. Se essa possibilidade existir para você, considera dar esse passo. Você merece ter apoio de verdade.

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